É muito comum alguém dizer: “Tive uma crise de ansiedade” quando, na verdade, teve um ataque de pânico e também o contrário. Na prática, os dois estados podem se parecer, porque envolvem desconforto intenso e sintomas físicos. Mas entender a diferença ajuda muito por três motivos:
- Dá nome ao que está acontecendo (e isso reduz o medo).
- Ajuda a agir melhor na hora (em vez de piorar o ciclo).
- Facilita buscar o tipo de ajuda certa (clínica, psicoterapia, estratégias de manejo).
Neste texto, vamos diferenciar crise de ansiedade e ataque de pânico, explicar por que o corpo reage assim e o que fazer no momento em que tudo parece sair do controle com uma linguagem simples e um olhar psicanalítico.
Por que o corpo “entra em alarme”?
Tanto na crise de ansiedade quanto no ataque de pânico, o corpo ativa um modo automático de sobrevivência: coração acelera, respiração muda, músculos tensionam, atenção fica hiperfocada. É como se o organismo dissesse: “Perigo: prepare-se para agir.”
O problema é que, muitas vezes, o “perigo” não é um leão. Pode ser:
- uma situação social
- uma cobrança interna
- um medo antecipatório (“e se eu passar mal?”)
- um gatilho emocional (um lugar, uma frase, um tom de voz)
E aí, o corpo reage como se o risco fosse físico e imediato.
Um ponto-chave: o pânico costuma ser mais “medo do próprio corpo” (medo das sensações e do colapso), enquanto a ansiedade costuma ser mais “medo do que pode acontecer” (medo do futuro, da avaliação, do fracasso).
Crise de ansiedade: como costuma ser
A crise de ansiedade, em geral, é um aumento significativo da ansiedade que:
- cresce aos poucos (minutos, horas, às vezes dias)
- vem com preocupação, tensão e ruminação (o famoso “e se…”)
- pode trazer sintomas físicos, mas muitas vezes a pessoa ainda consegue “funcionar” parcialmente
- costuma estar ligada a situações estressoras reconhecíveis (mesmo que pareçam “pequenas”)
Como a pessoa descreve
- “Minha mente não para.”
- “Sinto um aperto no peito o dia inteiro.”
- “Estou sempre em alerta.”
- “Estou exausto, mas não consigo desligar.”
O risco mais comum
A pessoa tenta resolver ansiedade com controle total: checar, antecipar, revisar, pedir garantias, evitar decisões. Isso alivia momentaneamente, mas reforça a crença de que “só fico bem se controlar tudo”.
Ataque de pânico: como costuma ser
O ataque de pânico, em geral, tem uma característica muito marcante: ele é mais súbito e vem com sensação intensa de catástrofe.
- surge de forma rápida (às vezes “do nada”, às vezes após um gatilho discreto)
- vem com medo forte: “vou morrer”, “vou desmaiar”, “vou enlouquecer”
- o corpo dispara sintomas muito intensos e a pessoa sente uma urgência de fugir
- é comum a pessoa achar que está tendo um evento médico grave
Como a pessoa descreve
- “Veio uma onda e eu achei que ia morrer.”
- “Meu corpo tomou conta.”
- “Eu precisava sair dali imediatamente.”
- “Eu não conseguia raciocinar.”
O risco mais comum
O cérebro aprende uma associação poderosa: “aquele lugar é perigoso” (ou “aquela sensação é perigosa”). Então a pessoa passa a evitar lugares e sensações, e isso pode iniciar um ciclo de restrição.
Como diferenciar na prática (sem complicar)
Uma forma simples de diferenciar é observar três aspectos:
1 – Tempo de subida
- Crise de ansiedade: costuma subir aos poucos.
- Pânico: costuma subir rápido e atingir pico intenso.
2 – Tipo de medo
- Crise de ansiedade: medo do futuro e das consequências (“e se eu falhar?”).
- Pânico: medo do colapso imediato (“vou morrer/agora”).
3 – Urgência de fuga
- Crise de ansiedade: a pessoa sofre, mas ainda tenta manter algum controle.
- Pânico: a urgência de sair/escapar é muito forte.
Importante: existe sobreposição. Uma crise de ansiedade pode culminar em pânico, e um ataque de pânico pode deixar “rescaldo” ansioso por dias.
Um olhar psicanalítico: quando o pânico é “excesso” (não fraqueza)
Do ponto de vista psicanalítico, o pânico pode aparecer quando algo interno ameaça “romper a barreira” do que a pessoa consegue conter.
Em muitas histórias, existe um padrão:
- a pessoa foi “forte demais” por tempo demais
- sustentou responsabilidades cedo
- virou referência para os outros
- aprendeu a não pedir ajuda
- engoliu medo, raiva, tristeza, cansaço
E então, em algum momento, o corpo faz aquilo que a pessoa não se permitiu fazer: ele para, ele grita, ele pede socorro.
O pânico, nesse sentido, pode ser o ponto em que o psiquismo diz:
“Eu não aguento mais sustentar tudo sozinho.”
Isso não significa que “o problema é só emocional” ou que “é só fazer terapia e pronto”. Significa que o sintoma pode ter uma função: mostrar um limite que estava sendo negado.
O que fazer na hora (passo a passo simples e realista)
O objetivo aqui não é “sumir com a crise em 10 segundos”. É reduzir o pico, evitar que o medo alimente o medo, e ajudar o corpo a sair do modo alarme.
1 – Pare de discutir com o sintoma
A frase “isso não pode estar acontecendo” costuma aumentar pânico. Troque por algo firme e verdadeiro:
- “Está acontecendo.”
- “É desconfortável, mas não é perigoso.”
- “Vai passar.”
Esse tipo de frase diminui a sensação de catástrofe e ajuda o cérebro a recuperar o eixo.
2 – Mude o foco para algo sensorial (ancoragem no presente)
Escolha 1 opção simples:
- sentir os pés no chão e pressioná-los levemente
- descrever mentalmente 5 coisas que você vê
- segurar um copo com água e focar na temperatura
- encostar as mãos em uma superfície e notar textura (lisa, áspera, fria, quente)
Isso interrompe a espiral de pensamentos e devolve a mente para o “aqui e agora”.
3 – Alongue a expiração (sem forçar perfeição)
A expiração mais longa ajuda o corpo a sair do alerta. Um exemplo:
- inspire contando 3
- solte o ar contando 5
- repita por 2–3 minutos
O objetivo é mandar o recado: “o perigo passou”.
4 – Diminua o comportamento de fuga aos poucos (quando for seguro)
Se você sempre foge, o cérebro aprende: “eu só sobrevivo se eu fugir.”
Quando possível (e com segurança), tente um passo pequeno:
- ficar mais 30 segundos do que ficaria
- ou se afastar para um lugar mais calmo, sem “sumir” totalmente
- ou sentar e esperar a onda baixar antes de ir embora
Isso é uma reeducação do alarme. Não é sobre heroísmo; é sobre treino gradual.
Exemplo prático e verdadeiro: pânico no supermercado (e a vida virando um mapa de fugas)
Uma pessoa tem um ataque de pânico no supermercado. Sai correndo. No dia seguinte, evita voltar. Depois evita shopping. Depois evita lugares cheios. Depois evita até dirigir em horários de trânsito.
Quando percebe, a vida virou um “mapa de rotas seguras”.
O cuidado aqui precisa ser delicado:
- não é se forçar brutalmente, porque isso pode traumatizar mais
- é reconquistar o espaço em pequenas etapas, com repetição, constância e apoio
Em muitos casos, a melhora vem quando a pessoa entende duas coisas ao mesmo tempo:
- “Meu corpo dispara um alarme falso.”
- “Mesmo assim, eu consigo atravessar a onda.”
Conclusão
Crise de ansiedade e ataque de pânico podem parecer iguais, mas entender as diferenças muda tudo: você começa a sair do susto, organiza melhor o que fazer e reduz o ciclo “sintoma → medo → mais sintoma”.
Com um olhar psicanalítico, o pânico pode ser visto como um sinal de excesso, um ponto de ruptura do que estava sendo sustentado em silêncio. Não é fraqueza. É um pedido de reorganização interna.
Se você aprende a nomear, ancorar o corpo, alongar a expiração e reduzir fugas aos poucos, você dá ao seu sistema nervoso uma nova mensagem: “eu não preciso entrar em colapso para eu ser cuidado.”
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