É muito comum alguém dizer: “Tive uma crise de ansiedade” quando, na verdade, teve um ataque de pânico e também o contrário. Na prática, os dois estados podem se parecer, porque envolvem desconforto intenso e sintomas físicos. Mas entender a diferença ajuda muito por três motivos:

  1. Dá nome ao que está acontecendo (e isso reduz o medo).
  2. Ajuda a agir melhor na hora (em vez de piorar o ciclo).
  3. Facilita buscar o tipo de ajuda certa (clínica, psicoterapia, estratégias de manejo).

Neste texto, vamos diferenciar crise de ansiedade e ataque de pânico, explicar por que o corpo reage assim e o que fazer no momento em que tudo parece sair do controle com uma linguagem simples e um olhar psicanalítico.

Por que o corpo “entra em alarme”?

Tanto na crise de ansiedade quanto no ataque de pânico, o corpo ativa um modo automático de sobrevivência: coração acelera, respiração muda, músculos tensionam, atenção fica hiperfocada. É como se o organismo dissesse: “Perigo: prepare-se para agir.”

O problema é que, muitas vezes, o “perigo” não é um leão. Pode ser:

E aí, o corpo reage como se o risco fosse físico e imediato.

Um ponto-chave: o pânico costuma ser mais “medo do próprio corpo” (medo das sensações e do colapso), enquanto a ansiedade costuma ser mais “medo do que pode acontecer” (medo do futuro, da avaliação, do fracasso).

Crise de ansiedade: como costuma ser

A crise de ansiedade, em geral, é um aumento significativo da ansiedade que:

Como a pessoa descreve

O risco mais comum

A pessoa tenta resolver ansiedade com controle total: checar, antecipar, revisar, pedir garantias, evitar decisões. Isso alivia momentaneamente, mas reforça a crença de que “só fico bem se controlar tudo”.

Ataque de pânico: como costuma ser

O ataque de pânico, em geral, tem uma característica muito marcante: ele é mais súbito e vem com sensação intensa de catástrofe.

Como a pessoa descreve

O risco mais comum

O cérebro aprende uma associação poderosa: “aquele lugar é perigoso” (ou “aquela sensação é perigosa”). Então a pessoa passa a evitar lugares e sensações, e isso pode iniciar um ciclo de restrição.

Como diferenciar na prática (sem complicar)

Uma forma simples de diferenciar é observar três aspectos:

1 – Tempo de subida

2 – Tipo de medo

3 – Urgência de fuga

Importante: existe sobreposição. Uma crise de ansiedade pode culminar em pânico, e um ataque de pânico pode deixar “rescaldo” ansioso por dias.

Um olhar psicanalítico: quando o pânico é “excesso” (não fraqueza)

Do ponto de vista psicanalítico, o pânico pode aparecer quando algo interno ameaça “romper a barreira” do que a pessoa consegue conter.

Em muitas histórias, existe um padrão:

E então, em algum momento, o corpo faz aquilo que a pessoa não se permitiu fazer: ele para, ele grita, ele pede socorro.

O pânico, nesse sentido, pode ser o ponto em que o psiquismo diz:

“Eu não aguento mais sustentar tudo sozinho.”

Isso não significa que “o problema é só emocional” ou que “é só fazer terapia e pronto”. Significa que o sintoma pode ter uma função: mostrar um limite que estava sendo negado.

O que fazer na hora (passo a passo simples e realista)

O objetivo aqui não é “sumir com a crise em 10 segundos”. É reduzir o pico, evitar que o medo alimente o medo, e ajudar o corpo a sair do modo alarme.

 1 – Pare de discutir com o sintoma

A frase “isso não pode estar acontecendo” costuma aumentar pânico. Troque por algo firme e verdadeiro:

Esse tipo de frase diminui a sensação de catástrofe e ajuda o cérebro a recuperar o eixo.

2 – Mude o foco para algo sensorial (ancoragem no presente)

Escolha 1 opção simples:

Isso interrompe a espiral de pensamentos e devolve a mente para o “aqui e agora”.

3 – Alongue a expiração (sem forçar perfeição)

A expiração mais longa ajuda o corpo a sair do alerta. Um exemplo:

O objetivo é mandar o recado: “o perigo passou”.

4 – Diminua o comportamento de fuga aos poucos (quando for seguro)

Se você sempre foge, o cérebro aprende: “eu só sobrevivo se eu fugir.”
Quando possível (e com segurança), tente um passo pequeno:

Isso é uma reeducação do alarme. Não é sobre heroísmo; é sobre treino gradual.

Exemplo prático e verdadeiro: pânico no supermercado (e a vida virando um mapa de fugas)

Uma pessoa tem um ataque de pânico no supermercado. Sai correndo. No dia seguinte, evita voltar. Depois evita shopping. Depois evita lugares cheios. Depois evita até dirigir em horários de trânsito.

Quando percebe, a vida virou um “mapa de rotas seguras”.

O cuidado aqui precisa ser delicado:

Em muitos casos, a melhora vem quando a pessoa entende duas coisas ao mesmo tempo:

  1. “Meu corpo dispara um alarme falso.”
  2. “Mesmo assim, eu consigo atravessar a onda.”

Conclusão

Crise de ansiedade e ataque de pânico podem parecer iguais, mas entender as diferenças muda tudo: você começa a sair do susto, organiza melhor o que fazer e reduz o ciclo “sintoma → medo → mais sintoma”.

Com um olhar psicanalítico, o pânico pode ser visto como um sinal de excesso, um ponto de ruptura do que estava sendo sustentado em silêncio. Não é fraqueza. É um pedido de reorganização interna.

Se você aprende a nomear, ancorar o corpo, alongar a expiração e reduzir fugas aos poucos, você dá ao seu sistema nervoso uma nova mensagem: “eu não preciso entrar em colapso para eu ser cuidado.”

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