Muita gente descreve a insônia ansiosa com uma frase muito parecida: “De dia eu até vou… mas quando deito, minha cabeça liga.” E isso é mais comum do que parece. A pessoa passa o dia resolvendo coisas, respondendo mensagens, mantendo a rotina “em pé”. Mas, na hora em que o corpo finalmente deveria descansar, surge uma espécie de reunião mental: pensamentos, preocupações, lembranças, cobranças, arrependimentos e cenários futuros.

A insônia ligada à ansiedade raramente é “só falta de sono”. Na maioria das vezes, é um encontro entre um corpo que não desacelerou e uma mente que tenta garantir segurança através do controle. Neste texto, vou explicar por que isso acontece, o que a psicanálise pode ajudar a enxergar nesse processo e uma rotina prática (simples e aplicável) para diminuir esse padrão.

O que acontece à noite 

À noite, o mundo externo diminui: menos barulho, menos tarefas, menos distrações. E então acontece algo importante: sobra espaço.

Esse espaço costuma ser preenchido por:

Além disso, se você passou o dia em modo “correndo”, o corpo chega na cama com uma espécie de adrenalina emocional acumulada. Mesmo que você esteja cansado, o sistema interno ainda está ativo. Resultado: o corpo pede descanso, mas o cérebro se comporta como se fosse hora de resolver a vida.

A associação que o cérebro aprende

Quando isso se repete por alguns dias ou semanas, o cérebro começa a associar:

Ou seja, a cama deixa de ser um “sinal de descanso” e vira um “gatilho mental”. A pessoa deita e, sem perceber, já entra em alerta.

A mente que não desliga não é “fraqueza”: é um tipo de proteção

Pode parecer estranho, mas muitas vezes a mente acelerada está tentando proteger você. Só que ela protege do jeito que sabe: pensando, antecipando, controlando, calculando.

Em termos simples, é como se existisse uma lógica interna:

O problema é que o cérebro não tem “fim” nesse tipo de tarefa. Sempre existe mais um cenário para prever. A mente vira uma máquina de “e se…”.

Por que a ansiedade piora justamente quando você deita?

Existem alguns motivos muito frequentes:

1 – Menos distração, mais contato interno

Durante o dia, você tem compromissos e estímulos. À noite, eles diminuem. E o que foi empurrado volta.

2 – O corpo cansado nem sempre significa mente calma

Cansaço físico não garante relaxamento emocional. Você pode estar exausto e ainda assim “ligado” por dentro.

3 – Silêncio e escuro amplificam sinais internos

Quando está tudo quieto, você percebe mais:

E isso pode virar um ciclo de vigilância: “Será que vou conseguir dormir?”

4 – Medo de não dormir vira um gatilho

Quanto mais a pessoa pensa “preciso dormir”, mais pressão surge — e o sono, que é espontâneo, fica difícil. O sono não gosta de cobrança.

Um olhar psicanalítico: a noite como o horário em que as defesas enfraquecem

Na psicanálise, a noite muitas vezes aparece como o momento em que nossas defesas (aquilo que usamos para “aguentar” e seguir) ficam mais frágeis. É quando pode emergir:

Em outras palavras: o dia é produtividade; a noite é encontro com o que foi deixado para trás.

Insônia como tentativa de controle

Em alguns casos, existe um movimento inconsciente muito importante:

“Se eu dormir, eu solto o controle. Se eu soltar o controle, algo ruim acontece.”

Isso pode vir de histórias em que a pessoa aprendeu que:

Então, o corpo até quer repouso, mas a mente continua em vigília.

Exemplo prático e verdadeiro: quem cuida de todo mundo

Uma pessoa passa o dia cuidando de pais, filhos, equipe, problemas da casa. Resolve tudo, segura tudo, responde tudo.

Na hora de deitar, vem o pensamento:

O dia tem tarefas. A noite tem silêncio. E o silêncio vira espelho: ele mostra o quanto aquela pessoa está carregando.

Muitas vezes, não é que ela “não sabe relaxar”. É que ela não se sente autorizada a relaxar.

Como reconhecer o padrão de insônia ansiosa (sinais comuns)

Você pode estar nesse padrão se:

Rotina prática (simples e aplicável) para diminuir ansiedade noturna

A ideia aqui é dupla:

  1. descarregar a mente antes de deitar
  2. reensinar o cérebro que cama é para dormir (não para ruminar

1 – “Descarrego mental” antes da cama (10 minutos)

Pegue um papel (ou notas do celular) e escreva, sem capricho:

Isso tira o conteúdo da cabeça e coloca num lugar concreto. É como dizer ao cérebro: “anotado, não precisa repetir.”

2 – Regra do “problema sem solução agora”

Se aparecer um problema às 2h da manhã, pergunte:

3 – Reduzir telas antes de deitar (sem moralismo)

Não é “certo ou errado”. É funcionamento do cérebro: tela mantém estímulo, comparação, informação e alerta. Se você puder, faça uma transição:

O objetivo é o cérebro entender: “o dia acabou.”

4 – Se passou ~20–30 minutos e o sono não veio, saia da cama

Isso é uma técnica muito eficaz para quebrar a associação cama = ansiedade.

Assim, você “reeduca” o cérebro: cama volta a ser sinal de sono, não de luta.

5 – Troca de pergunta (muda o jogo)

Em vez de: “Por que eu não durmo?”
Tente: “O que minha mente está tentando resolver/proteger agora?”

Essa pergunta traz curiosidade em vez de briga interna. E isso já reduz a pressão.

Conclusão

Quando a mente não desliga à noite, isso raramente é falta de força de vontade. Na maior parte das vezes, é um sistema de alerta que ficou ligado o dia inteiro e um psiquismo que tenta se sentir seguro por meio do controle.

Com um olhar psicanalítico, a noite pode ser o momento em que o que foi engolido durante o dia aparece — cobranças, medos, raivas, tristezas. E a insônia, às vezes, é um recado: tem algo pedindo cuidado e elaboração, não só silêncio.

A boa notícia é que dá para começar a mudar esse padrão com passos pequenos: descarregar a mente, colocar limites na ruminação, reduzir estímulos e reensinar o cérebro que cama é lugar de descanso. Não é mágica. É repetição, gentileza e consistência.


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